domingo, 8 de fevereiro de 2015

Então volta.

Vem. A cama ainda está vazia e o controle da televisão ainda repousa onde você o deixou pela última vez, do seu lado, para saciar seu vício antes do sono chegar enquanto eu lia algum livro velho que você não entendia muito bem. Volta. A cafeteira que você tanto gosta ainda está na cozinha, aposentada, em uma espécie de folga pois eu nunca mais tomei café depois que você foi embora.
A varanda ainda está aberta para a nossa brisa do mar entrar.
E minha porta também, para quando você resolver voltar. Volta.
Porque, desde quando você foi embora, eu não consigo mais passar naquela padaria que vendia seu pão favorito e nem usar meu perfume preferido que você tanto gostava. Eu não vejo mais comédias românticas e nunca mais li poemas de amor. E eu também excluí aquela música do meu velho computador. Porque você costumava cantá-la pra mim nas manhãs de domingo, enquanto fazia o meu ovo mexido para eu acordar de bom humor.
Desde que você foi embora, eu nunca mais acordei de bom humor. Então volta.
Volta porque eu deixei tudo igual. O quarto, a estante, e até os seus cds de carnaval que eu vou tocar assim que você entrar por aquela porta. Vai ter até trio elétrico e sua cerveja favorita. E eu vou ter mais fôlego para sambar com você a noite toda na nossa avenida.
Volta porque eu prometo que mudei. Tenho dormido menos, ido à praia e nunca mais fumei. E ando até menos ranzinza, menos fria e menos preguiçosa. Mas confesso que continuo chata. Mas agora eu acordo cedo no domingo, ando de bicicleta e voltei a frequentar o cinema. Eu comecei a trabalhar, voltei a estudar e aprendi a cozinhar. E eu juro que parei de bagunçar a casa tanto assim, e a vida também. Vem. 
Ainda tá tudo aqui. Seus antigos projetos, seus antigos óculos, seu antigo amor. E aquela sua camisa velha que eu tanto gostava e agora já desbotou. A vista pro mar continua bonita, e o vizinho brigão, graças à Deus, já se mudou. Sua gaita está aqui e o violão também esperando você voltar para compor. 
Seu cheiro ainda está no meu cobertor. Sua foto, no corredor. 
E a dor também.
Tá tudo aqui. Só falta você.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Esse mundo que dá voltas.

A Gabriela, em seus quatro anos, adorava desenhar. Não podia ver um giz de cera que já queria colorir a vida de algum espaço em branco. Seus traços não eram, nem de longe, retratos exatos dos cachorros que tinham na casa de sua avó no interior do Espírito Santo; mas quem iria corrigir um desenho da pequena Gabriela? Ela era miudinha e quase sumia em seus longos e loiros cabelos cacheados, e adorava ter sua pele tão branca para poder colorir a si mesmo quando não tivesse onde pintar. A mãe da Gabriela ficava louca com os riscos na parede da sala de estar; perdera as contas de quantas vezes mandou pintar e repintar o apartamento por culpa da filha que só queria saber de desenhar. Bem melhor e menos trabalhoso dar um banho na Gabriela do que repintar as paredes de casa toda vez que ela resolvesse, algo novo, criar.
O Pedro, quando era pequeno, usava o capacete de obra que o seu pai engenheiro levava para casa. Sua mãe contou 13 fotos nos álbuns do menino Pedro nos quais ele usa o inseparável capacete branco, que sambava no seu rosto magro e moreno, bronzeado pelo sol do Rio de Janeiro. No ensino médio, junto com sua barba, ia crescendo no Pedro uma facilidade incrível com as tais ciências exatas. E ele se aproveitava enquanto ensinava física para as colegas, explicando mal para as bonitas só para ter de explicar de novo e de novo. Suas notas eram altas e ele se vestia de engenheiro em toda festa a fantasia que precisava ir. No terceiro ano, o Pedro perdeu o pai em um acidente de carro no mesmo dia que descobriu que passou em primeiro lugar em Engenharia Civil na UFRJ. Essa vitória seria pro velho - era o que ele sempre dizia.
Nessas épocas, a Gabriela estava trabalhando em uma loja feminina no shopping mais famoso de Vitória, ajudando seus pais no pagamento da faculdade particular de Medicina. Coisa que ela detestava. Sabiam que a Gabriela, depois dos seis anos, começou a desenhar com mais exatidão? Quando chegou nos onze, então, os cachorros da casa da avó da Gabriela, aquela que morava ainda no interior, já estavam com detalhes que ninguém conseguia acreditar. Já não pintava mais paredes e nem o corpo - apesar de ter feito uma tatuagem escondida, aos quinze anos, na nuca, a qual sua mãe só descobriu dois anos depois. Nos dezesseis, a Gabriela, que não tinha cheiro de cravo e nem cor de canela, conseguia ganhar uma grana extra por fora com alguns de seus quadros que eram vendidos em uma galeria barata do centro da cidade e gostava de pichar muros quando brigava com os pais. Também havia pintado as paredes dos quartos de alguns amigos e eu queria ter conhecido ela naquela época só para ter o meu pintado também. Mas pobre Gabriela, quando se formou no colegial e disse que ia cursar artes visuais, todos riram da cara dela. Seus pais, nunca ricos, haviam se esforçado ao máximo para dar a ela uma boa educação. O mínimo que ela podia fazer ela realizar o desejo dos velhos e se formar em medicina. Que bonito. E ai dela se não realizasse. Então, lá foi a Gabriela fazer o vestibular e, graças ao bom ensino, passou na particular. E levou a prova para casa já que tinha desenhado um pássaro muito bonito no verso enquanto esperava o sinal bater.
O Pedro, um dos melhores alunos da faculdade, iniciou um estágio assim que ficou apto. Estudava de manhã, ia à obra de tarde e à noite ligava a televisão em qualquer filme cult que estivesse passando. Sua mãe  estava morrendo aos poucos desde que o câncer resolvera a assombrar e, alguns meses depois, haveria apenas uma fotografia dela emoldurada em algum porta retrato muito bonito, abaixo do antigo capacete de seu pai que estava pendurado na parede do quarto do rapaz. O Pedro não tinha mais tempo para namorar, o que deixava as garotas da faculdade um tanto chateadas. Que desperdício aquele rapaz alto, de pele dourada pelo sol da corrida na orla do fim de semana, e de corpo naturalmente musculoso viver para os estudos e trabalho. Elas morriam a cada vez que ele passava com seu caderno debaixo do braço, sem parar seus lindos olhos azuis em nenhuma delas. Pobre Pedro, de que valia a felicidade do sucesso sem ninguém para compartilhar?
No outro estado, a Gabriela levava bomba em qualquer matéria de medicina e isso a deixava irritada já que pagava para estar lá e odiava, enquanto vários outros alunos se matavam em cursinhos para ter a vaga dela. Mas ela não tinha culpa de encontrar a felicidade apenas nos quadros abstratos que fazia ou nas esculturas de argila que havia começado a fazer há alguns meses atrás. Fotografia também passava a se tornar um hobby e tomar o tempo que deveria estar sendo usado para gravar os nomes dos ossos que temos na mão. Mas suas mãos serviam para a arte, e não para a cura da dor de um desconhecido que entrasse no consultório e olhasse feio para a sua nova tatuagem que começava a crescer no pulso direito. Passava arrastada nos semestres e, a cada nota ruim, era um grito a mais de seus pais. A Gabriela havia, também, começado a namorar com um estudante de artes da universidade federal que era dois anos mais velho e isso irritava mais ainda seus pais, que tinham medo de ele desviar a garota de seu destino de ser médica. Bullshit. Já era tarde demais. O Fernando - namorado da Gabriela - influenciou tanto, mesmo sem querer, que a Gabriela largou medicina e deixou seus pais em lágrimas quando avisou que ia embora pro Rio de Janeiro estudar artes plásticas - não mais visuais - na universidade federal. Ela tinha passado no vestibular que fizera no mês anterior e tirou do banco todo o dinheiro que sobrava do trabalho, o qual ela vinha guardando há anos. Ia morar em uma casa com duas amigas que havia conhecido no ano novo em Santa Catarina, com as quais vinha mantendo a amizade desde lá. Chegando no Rio, ia procurar outro emprego e tocar a vida. E o Fernando? Mal entrou na história e já saiu.
O Pedro se formou com êxito e já tinha emprego na melhor empresa de engenharia do Rio de Janeiro. Sua vida estava mais calma e ele mais ranzinza e, de vez em quando, ele gostava de ir para a Lapa sentar em um bom barzinho com os colegas e ouvir música ao vivo, tentando achar uma felicidade.
A Gabriela havia se apaixonado pelo Rio e não parava de sorrir com seu novo curso. Enfim, livre das amarras do sonho dos pais... Porém, se sentia culpada. Quanta tristeza há em uma felicidade? Seus pais estavam longe, e tristes. Mas bola pra frente, Gabriela, um dia eles vão entender que a sua felicidade deveria fazer a deles. Enquanto isso, ela passava o tempo estudando, pintando e andando de skate pela orla de Copacabana.
Era uma segunda-feira - o Pedro odiava segundas-feiras - quando ele levantou da cama às seis horas, com o braço doendo por conta de um esbarrão com uma maluca de skate na orla no dia anterior, tomou um café forte e seguiu pra São Conrado para ajudar no primeiro dia da nova obra. Mas ele estava duas horas adiantado e, chegando lá, não tinha ninguém. Exceto por uma garota de short jeans, blusa largada e tênis encardido. Magra, palidamente saudável, e com cachos loiros contra o vento. Ela estava fazendo a assinatura do grafite que tinha terminado de fazer no muro e... Que absurdo. Pichar é proibido, não? Olhou ao redor mas a rua estava vazia. E o desenho estava tão bonito... Era o retrato da paisagem do mirante logo à frente, do outro lado da rua, com todo o mar iluminado pelo laranja do nascer do sol. Os pássaros pareciam sair do muro e voar pra cima dele. Mas que abuso.
- Ei, garota!
- Pois não?
A garota paralisou e, depois, virou para ele. Seria um policial? Ferrou. Mas o Pedro também paralisou. Era a maluca do skate que quase havia arrancado seu braço. E agora estava ali, pichando o seu muro. Tá, não era seu. Mas eles iam demoli-lo já que a obra seria grande.
- Ninguém te contou que pixar é proibido?
- Esse muro será destruído hoje... Não vê a placa? - A Gabriela (ele havia lido a assinatura) apontou para a placa que anunciava a data do começo da obra naquele terreno. É, ele sabia. Mas, mesmo assim, ficou sem resposta. A voz da garota, agora mais confiante, tinha uma delicadeza sutil e uma indiferença com os problemas, de quem estava satisfeito por ter feito o que queria. E como ele queria uma indiferença dessas.
A Gabriela estranhou tanto silêncio que pegou seu skate e foi embora, deixando aquele estranho completamente imerso em pensamentos. Sem saber que dali a dois meses, a foto daquela sua pichação estaria na internet e nos postes pela cidade enquanto o estranho procurava a Gabriela-dona-do-desenho. Sem saber que ele viria pedir para que ela pintasse a nova ponte que ele construíra no centro do Rio de Janeiro. Sem saber que conseguiria a fama com seus desenhos e esculturas, assim como o orgulho e felicidade de seus pais.
Sem saber, finalmente, que, dali a mais alguns meses, eles estariam fazendo, juntos, o que cresceram sonhando separados: o Pedro construindo uma vida para ambos enquanto a Gabriela se encarregava de colorir.
terça-feira, 25 de novembro de 2014

A vida e sua fábrica de sonhos perdidos

O Vinícius queria ser piloto.
Desde pequeno, ele colecionava miniaturas de avião e gostava de ir ao aeroporto. Jogava simulador de voo, amava viajar e dizia para todo mundo "eu vou ser piloto". A mãe do Vinícius achava graça, o pai dava risada, e a tia exclamava "que menino corajoso! Não tem medo de altura?". Eu não tenho medo de nada! Já no ginásio, o Vinícius  ainda se agarrava ao sonho e em todas as suas viagens ele dava um jeito de fazer amizade com os comissários de bordo, se aproximar no comandante e chegar até o piloto - é que o Vinícius só se aquietava ao entrar na cabine e ver todos aqueles botões no painel e o azul do céu bem à sua frente. Então a empresa do pai do Vinícius deu certo e se expandiu, sua mãe parou de trabalhar e virou madame e ele, quase se formando, já dava aulas de matemática pros colegas em recuperação. E aí o Vinícius , ao contrário do tal João de Santo Cristo, entendeu como a vida funcionava; ela era uma simples equação: eu bom em matemática + grande empresa herdada do pai = administração. A mãe aplaudiu, o pai se emocionou e o Vinícius  deixou o seu sonho pra lá.
A Bárbara queria ser professora.
E não era por menos; a Bárbara estudou na melhor escola da cidade e aprendeu com os melhores mestres. Ela tinha até um professor que fazia música com o assunto de física e ela, mesmo odiando física, conseguia, então, se dar bem. A mãe da Bárbara era arquiteta e chegava em casa todo dia cansada, reclamando da vida que levava. O pai era cirurgião geral, estava sempre correndo para alguma emergência e dormia muito mal. Mas os professores da Bárbara chegavam na escola todo dia às 7h, davam aulas até as 18h e, ao final, iam embora contando piada e dando risada. E no outro dia voltavam com a mesma vontade de trabalhar que, Deus é mais, parecia até loucura. Mas a Bárbara morava num bairro nobre do Rio de Janeiro em uma casa de 2 andares e tinha motorista à disposição, e aquele professor de física tinha um gol velho e um tanto acabado, caindo aos pedaços. E aí os pais da Bárbara fizeram o terror, a menina recuou e ano passado eu ouvi dizer que a Bárbara é uma boa cardiologista.
O Fernando queria ser ator.
Quando criança, ele era viciado em televisão. Assistia novela, os filmes dublados do canal não pago e gostava até das propagandas do supermercado. A mãe do Fernando era mãe solteira e não dava muito dinheiro pro menino ir ao cinema; ela dizia que era desperdício de dinheiro. E teatro? Nem pensar, muito caro. Vai estudar, menino. A mãe do Fernando tinha um bar e, junto com o pouco que recebia de pensão para o filho, conseguia pagar uma escola boa para o menino. Ele tinha que ser alguém na vida, afinal. O Fernando gostava da escola, tirava nota boa e começou um bico de gerente do bar. Um dia, sua mãe descobriu que o Fernando estava gastando seu dinheiro com uma oficina de ator e ficou uma fera. Vá estudar, faça o favor! E aí tudo piorou. A mãe do Fernando virou um monstro, jogou todos os filmes fora, queimou os livros e passou a tratá-lo mal até que ele caiu em depressão. O Fernando, então, só tinha dinheiro pra terapia e pros tarja-preta e, já mais velho, confessou como se fosse normal: "que sonho é esse que só me fez mal?" A mãe dele já morreu e agora ele cuida do bar.

O Fernando virou alcoólatra. A Bárbara é uma cardiologista bem sucedida em sua profissão, mas vive reclamando da vida que leva, está sempre correndo pra alguma emergência, dorme mal e não quer filhos por medo de serem infelizes. A empresa que o Vinícius  herdou do pai quase faliu no ano passado e ele acabou vendendo a sua parte. Ele até pensou em estudar para ser piloto, mas ele já estava velho demais pra isso...

A Ana é engenheira mas queria mesmo era ter feito Física.
O Matheus é arquiteto mas se arrepende por não ser psicólogo.
A Luiza é decoradora mas sempre sonhou em estudar design.
O João Pedro é advogado mas ainda deseja, secretamente, ter sido astronauta.
A Flora queria cantar, o Daniel queria tocar mpb, a Marcela queria ser jornalista, Douglas queria virar dançarino, Rebeca queria estudar história, o Paulo queria fazer educação física...
Eu queria estudar cinema. E você?



domingo, 9 de novembro de 2014

Ela faz cinema

A vi em um desses bares boêmios na Lapa há três semanas e dois dias. O relógio ultrapassava as vinte e duas e a noite era tão gelada quanto aquela cerveja que está descansando faz tempo no fundo do freezer. Tá, nem tanto. Mas carioca não é muito chegado ao frio e o inverno estava começando a chegar aqui no Rio de Janeiro, fazendo as pessoas colocarem as manguinhas para fora. No entanto, ali estava ela. Sentada sozinha naquele bar com música ao vivo, lendo um livro enquanto acompanhava com os lábios, ao mesmo tempo, a música de Chico Buarque que tocava ao fundo no palco improvisado. E com roupa sem manga. Me senti um idiota dentro daquele casaco de couro e por baixo de uma barba que protegia o meu rosto do vento frio que começava a me bater. E aquela mulher ali, sentada sob sua calça jeans e sua blusa regata estampada com Uma Thurman na capa de Pulp Fiction enquanto fumava um cigarro.
Custou para ela me notar enquanto eu a olhava sem discrições. Custou-me, em verdade, duas cervejas solitárias e um pastel de frango com catupiry até ela, por destino, acaso ou por força do meu pensamento, pousar os olhos em mim quando eu tentava manter o frango em minha boca, após morder o pastel quente. Ela riu. E quase não reparei em seus dentes tortos pois me ocupei demais em seus olhos verdes. Verde claro. E sua única covinha dançava no canto esquerdo de seu rosto enquanto ela ainda ria, tímida, revezando seu olhar entre mim e seu livro. Chico cedeu seu lugar à Elis Regina, a qual a moça continuava a saber cantar, e percebi que seu livro era sobre Woody Allen. E eu, que nunca fui muito fã do Woody Allen, assistiria a todos os seus filmes só pra discutir com ela. 
Depois de a entregar mais um sorriso sem graça, ela, por fim, levantou-se e veio até minha mesa, onde a convidei para sentar. E que fique pra sempre. 
A voz de alguma outra cantora de mpb, que eu desconhecia, surgiu no ar e ela, ao invés de cantar enquanto lia, deixou o livro de lado e adiantou uma conversa. Descobri que ela fazia cinema. E sua leitura era por conta de um trabalho sobre Woody Allen, mesmo ela me dizendo que gostava do trabalho do cara e se apressou em citar suas obras preferidas feitas por ele, enquanto eu resolvi ficar quieto. Vai que eu falasse que o acho superficial e ela ia embora de minha vida?
Mal entrou nesse meu mundo, pois não saia agora, não.
Contei da faculdade, dos meus projetos de publicidade, mostrei alguns trabalhos e falei sobre o cinema francês; ela adorava o cinema francês e disse que a fazia ter fé na vida. E eu, que só tinha assistido uns dois ou três filmes franceses, tratei logo de mudar o assunto. Tentei literatura, mas eu não tinha lido nada desde o fim de Harry Potter e ela devia engolir poetas dos quais eu nunca nem ouvi falar. E, quando eu achava que tudo estava perdido, num estilo "ela é demais pra mim", ela elogiou a minha camisa do Led Zeppelin e disse que Black Dog era uma de suas músicas favoritas. E então eu desandei a falar do meu gosto pelo rock dos anos 70 e do quanto ele mudou o mundo, e toda a minha empolgação arrancou, dela, alguns risos.
Comemos mais alguns pastéis, bebemos mais algumas cervejas, e eu ainda a emprestei o meu casaco de couro pois ela já estava arrepiada de frio e eu já estava pensando no quanto eu queria arrepiá-la de calor. Ela fumou mais um cigarro e eu, que sempre detestei aquele cheiro, achei lindo o jeito de ela soltar a fumaça pra fora da boca. Quis beijá-la. Quis pegar aquelas mãos que ela tanto gesticulava enquanto falava animada de algum de seus filmes favoritos que, por sorte, eu tinha visto. Quis pegar aquelas mãos e arrastá-las pra todo lugar. Quis ouvir mais até sobre Woody Allen e já havia prometido a mim mesmo que, assim que chegasse em casa, iria baixar todos os seus filmes.
E, enquanto eu me perdia em pensamentos a ouvindo falar sobre seu novo projeto que seria gravado no próximo mês, ela de repente se levantou. Já são quatro horas? Já são quatro horas! Ainda um tanto zonzo e confuso, a vi deixar um dinheiro em cima da mesa e dizer que tinha sido um prazer e, quando dei por mim... Ela estava indo embora.
- Espera, espera... Como faço pra te encontrar de novo?
A moça que fazia cinema fez, então, meu mundo desandar.
- Quem sabe a gente não se bate por aí qualquer hora dessas? - e o táxi, por fim, tomou distância.

Três semanas, dois dias, e nada de a gente se bater.
domingo, 13 de julho de 2014

De todas as formas de morrer

Apaixonou-se pela flor sem saber que tinha espinhos
Apaixonou-se pelo fogo sem saber que se queimava.
Apaixonou-se pela droga sem saber que vira vício
Apaixonou-se pelo mar sem saber que se afogava.
Apaixonou-se pelo choro sem saber se tinha cura
Apaixonou-se pelo riso sem saber que não sarava.

Apaixonou-se pela dor sem saber que assim morria
Apaixonou-se pela menina, sem saber que já amava.
sábado, 8 de fevereiro de 2014

Eu nunca sei sobre o que falar.

Eu poderia falar sobre esse vento que está entrando pela porta entreaberta. Eu poderia. Sobre o zunido que ele faz quando vem ao meu encontro e sobre como ele remexe as flores quando se bate nelas. Por que ele bate nas flores? São tão delicadas. Eu poderia falar que eu queria que você entrasse por essa porta entreaberta. E a fechasse pra nunca mais sair. E se batesse em mim já que eu não sou tão delicada assim. E ficasse por aqui fazendo algum barulho pra que eu não me esqueça de como é ter você por perto. Porque eu morro de medo de não ter você por perto. Ou de esquecer da sensação (porque eu gosto da sensação). 
Eu poderia falar sobre a chuva que começou a cair e do frio que está lá fora. E aqui dentro também, sem você. Como vai você? E o tempo aí? Deve estar frio. Você sempre foi frio. Ou eu que sempre fui assim? Eu nunca gostei do calor, afinal. Você sabe o quanto eu sou alérgica a ele e que, só de pensar em calor, minha rinite ataca. E eu nem sei se isso é possível. Eu deveria ser estudada. E isso me faz lembrar daquela mania ridícula que você tinha de me estudar, de me analisar a todo momento. Céus. Como eu detestava aquilo. Então esqueça; eu não quero ser estudada. Eu não preciso. Eu tô legal. Quer dizer. Não tão legal assim. Mas a gente vai levando. Eu levanto e vou levando. E eu queria que você me levasse junto para onde você fosse. Pra qualquer lugar.
Só me tire daqui. Só me tire de mim. Só não me deixe só. Sabe. Depois que você foi embora, eu ando com um pavor horrível de ficar só mesmo sabendo que não deveria ser assim. Mas é. Eu ando sozinha à procura de alguém pra me acompanhar. Esses dias, ajudei uma senhora a atravessar a rua. Ela me lembrou sua avó. Eu gostava da sua avó porque eu nunca pude conhecer a minha avó então me apeguei a sua. E aí eu ajudei aquela senhorinha a atravessar a rua. Não porque ela me lembrava a sua avó que fazia o papel da minha, mas porque eu não quis atravessar a rua sozinha. Eu não quero atravessar mais nada sozinha. Eu tenho medo. Tenho medo de pisar em falso e cair como aquela vez que escorreguei e todo mundo viu. Tenho medo de me verem no chão. Logo eu que sempre tive o pisar seguro. E o pesar também
Acho que afrouxei.
Eu devo precisar mesmo ser estudada. Ou não. É. É melhor não.
Eu não preciso de cura. Eu sou assim. Só... Só. E eu vou levando.

(Eu poderia te falar qualquer coisa. Mas você sabe como eu acho que as coisas que eu digo nunca parecem boas o suficiente. Por isso eu as deixo guardadas, com mais um monte de coisa que não termino. Ou que não são boas o suficiente. Assim como eu. Eu nunca fui boa o suficiente. Eu devo, então, ser um grande rascunho da vida. Ela deve me usar, de quando em vez, pra ver o que funciona. Mas nada nunca funciona. Sempre acontece alguma coisa errada ou, então, eu deixo pra lá antes de terminar. Porque vai dar errado, você entende? Eu devo estar jogada, por aí, em qualquer caderno velho do universo. Um esboço de vidas que o universo - não - quer no mundo. Um esboço ambulante. É, devo ser isso mesmo - me descobri. Um grande esboço ambulante que nunca foi terminado porque não era bom o suficiente. E só Deus saber se um dia será.)
domingo, 22 de dezembro de 2013

Equilibrista desequilibrada

Vou na esquina comprar cigarro para ver se sai fumaça desse circo pegando fogo. Que queime por inteiro, penso; já não basta a queimadura por dentro. E não bastava mesmo. É como se o mágico errasse o truque e enfiasse a faca na assistente. Ou como se o motoqueiro, por descuido, perdesse pro globo da morte. Ou se o palhaço esquecesse a piada.
Ou, talvez, a equilibrista tenha se desequilibrado e caído do alto.
Estou no chão. E, daqui de baixo, assisto o fogo subir pelas estruturas e queimar toda essa lona que nos protege do lado de fora. Ouço o ruído das madeiras; sinto o cheiro do queimado. Na boca, o gosto salgado; na pele, o arder do machucado - o teto está caindo, mas eu não me movo.
Talvez a equilibrista tenha quebrado a perna. Ou, talvez, ela tenha desistido por tanto cair.

Ouvi dizer que a assistente está com medo de arriscar.
E que motoqueiro teve um pesadelo e desistiu de se apresentar.
Que o palhaço já não sorri mais. E que a equilibrista é uma desequilibrada que não consegue equilibrar mais nada.

Avisem a todos que meu espetáculo está no fim: vou na esquina comprar cigarro - e espero nunca mais voltar.
 

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